O espírito 神 Shén

Eduard Genís Sol, julho 2017

Na antiga China, igual que em diferentes culturas ancestrais, a psique estava integrada numa série de identidades semi-independentes: o espírito (神, Shén), a alma etérea (魂, Hún), a alma corporal (魄, ), a reflexão (意, ) e a vontade (志, Zhì).

Segundo o Eixo Espiritual(灵枢, Líng shū), o coração entesoura o espírito (心藏神, Xīn cáng shén), o fígado, a alma etérea (肝藏魂, Gān cáng hún); o pulmão, a alma corporal (肺藏魄, Fèi cáng pò); o baço, a reflexão (脾藏意, Pí cáng yì) ou a capacidade de pensar, e o rim, a vontade (肾藏志, Shèn cáng zhì). As actividades mentais, a consciência e o pensamento estão repartidos entre as cinco vísceras, mas estão sempre sobre as ordens centrais do espírito do coração (心神, Xīn shén). O espírito reside no coração, mas incumbe uma parte das suas funções noutros espíritos, que residem noutras vísceras e que actúam sobre as ordens centrais.

A noção do espírito possui diversos sentidos em função do contexto que se utiliza, de tal maneira que se trata de um conceito que se escapa de uma simples definição. Assim, em geral, o espírito faz referência às manifestações externas das actividades vitais da pessoa (神明活动, Shén míng huó dòng). Neste contexto, descreve a constituição ou a aparência geral do corpo, a vivacidade do olhar, da linguagem, dos gestos, das actitudes, da capacidade de resposta. Em geral, a vitalidade global da pessoa.  Assim, diremos que uma pessoa tem espírito quando possui vontade e alegria de viver, e esta condição pode-se ler tanto numa linguagem verbal como corporal. Uma pessoa sem espírito está apagada e é taciturna, sem ilusão, sem brilho nos olhos.

Mas ‘espírito’ também significa a força motora que governa toda a actividade fisiológica da pessoa. O coração entesoura o espírito (心藏神, Xīn cáng shén) e este tem o comando sobre todas as actividades do corpo humano. Assim, através do espírito, o coração assume a direcção de todos os orgãos para que estes possam levar a cabo as suas actividades fisiológicas (生理, Shēng lǐ) de maneira coordenada e com harmonia. As vísceras e as entranhas precisam desta direcção central do coração para que haja um bom funcionamento. É por isso que na medicina chinesa diz-se que o coração é o grande soberano das cinco vísceras e das seis entranhas, a morada da essência-espírito (心著五脏六腑之大主也精神之所舍也, Xīn zhě wǔ zàng liù fǔ zhī dà zhǔ yě jīng shén zhī suǒ shě yě). Em caso de perturbação do espírito, produz-se um transtorno nas actividades funcionais dos outros sistemas orgânicos e, nos casos mais graves, pode-se chegar a ter um transtorno do processo vital na sua totalidade.

O espírito do coração recebe as informações provenientes do exterior através dos orificios puros (清窍, Qīng qiào), que são os orgãos sensitivos: olhos, boca, nariz e ouvido. Através deles, o espírto informa do mundo exterior e o seu funcionamento determinaa perspicácia da consciência. De maneira que os orgãos dos sentidos são as áreas de contacto que permitem ao espírito do coração ser consciente do mundo exterior, responder às estimulações externas e manter uma inter-reacção permanente com o que está ao redor.

Encontrámos um sentido particular da palavra espírito nas qualidades do pulso, quando se faz referência ao facto que um pulso saudável tem de ter estômago, espírito e raíz (胃神根, Wèi shén gēn). Estas qualidades do pulso servem como indicadores de um bom ou mau prognóstico do paciente. E aquí‘espírito’ tem o sentido de força e suavidade das pulsações.

Finalmente, o sentido principal da palavra ‘espírito’ faz referência às actividades mentais (精神, Jīng shén), à consciência e ao pensamento. Mas o espírito também representa a vida afectiva, o funcionamento emocional da pessoa. Na medicina chinesa, o coração é o orgão principal relacionado com a actividade mental e o mais importante de todas as emoções da pessoa. Mesmo assim, desde a dinastia Míng (明) é muito conhecido que as actividades mentais, a consciência e o pensamento estão no cérebro (脑, Nǎo). Mas em termos de aplicação das correspondências sistemáticas que caracterizam a medicina chinesa, esta realidade é prácticamente estéril.

O coração governa o espírito-mente (心主神志, Xīn zhǔ shén zhì), ou mente consciente e em condições normais, a mente será clara, firme, estável, ágil e capaz de responder aosestímulos externos, e o estado emocional da pessoa, estará impregnado de calma e vontade de viver. Enquanto que na patologia aparecem sinais de perturbação mental e emocional, como a confusão mental, insónia, uma actividade onírica excessiva, excitação mental ou delírio. Ou encontrámos um esforço das reacções, abatimento, apatia e, se é pior, podemos ter perda de consciência.

Tal como foi referido anteriormente, o espírito do coração (心神, Xīn shén) delega parte das suas funções aos outros espíritos que residem nas outras vísceras (脏, Zàng). Apesar desta delegação, o espírito do coração dirige o conjunto de funções dos outros cinco espíritos (五神, Wǔ shén). Estes cinco espíritos e as cinco vísceras nas quais residem, influenciam-se mutuamente e actúam conjuntamente para favorecer um bom funcionamento psicológico e físico da pessoa.

O caractere, , Shén, espírito, é composto por dois radicais: , Shì, que representa o influxo do Céu, e , Shēn, que significa entender, expressar. Assim em conjunto, este caráter expressa que o espírito do coração é uma forma súbtil de (气) que se estende aos outros para poder relacionar-se.

A essência (精, Jīng) é a origem e a base do espírito, tal como explica o oitavo capítulo do Eixo Espiritual (灵枢, Líng shū) quando diz que a vida é gerada através da essência. Quando as duas essências, a do pai e a da mãe se unem formam o espírito. Depois do nascimento, a essência do Céu anterior (先天之精, Xiān tiān zhī jīng) armazena-se no rim e, juntamente com a essência do Céu posterior (后天之精, Hòu tiān zhī jīng), constituem a base e a nutrição do espírito. Depois da morte, o espírito simplesmente se extingue.

À essência--espírito (精气神, Jīng qì shén), a medicina chinesa chama-lhe os três tesouros (三宝, Sān bǎo). Estes três tesouros representam três estados diferentes de condensação do , sendo a essência a mais densa de todos e o espírito o mais leve, imaterial e subtil.  De forma que a actividade do espírito depende da essência e doQì. Se estes são abundantes, o espírito estará equilibrado. Ao contrário, se escasseam, o espírito estará fraco, apagado, deprimido (神昏, Shén hūn), já que definitivamente, o espírito não deixa de ser uma grande concentração do do coração. Se existe uma insuficiência da essência (精不足, Jīng bù zú) e/ou um vazio do do coração (心气虚, Xīn qì xū) provocará esta situação de apagar o espírito.

Mas a relação entre a essência, o e o espírito têm uma direcção dupla. E é por isso que o estado de espírito afecta directamente o e a essência. Assim a infelicidade, a depressão, a ansiedade e em geral, as diferentes desordens emocionais perturbam o mecanismo do (气机, Qì jī), tal que os seus movimentos naturais de entrada, saída, ascensão e descensão e terminam por provocar um estancamento próprio (气滞, Qì zhì). Se este estancamento continua, acaba por se transformar em calor (化热, Huà rè) ou em fogo (化火, Huà huǒ). Os dois consumem o yīn e, portanto, a essência.

Por outro lado, o coração governa o sangue (心主血, Xīn zhǔ xuè). Isto quer dizer que o do coração propulsa o sangue através dos vasos, para garantir o transporte do mesmo por todo o organismo e com a finalidade de alimentar e hidratar o corpo. O sangue do coração constitui o suporte material do espíritoe, portanto, das actividades mentais. Em Perguntas Elementares (素问, Sù wèn), podemos ler que o sangue e o Qì são o espírito do homem. Isto quer dizer que o espírito está constituído pela acumulação do Qì do coração, e este espírito necessita o suporte material do sangue do coraçãopara residir nela. Assim, o Eixo Espiritual (灵枢, Líng shū) confirma que o sangue é a actividade do espírito. Com tudo isto verifica-se que se o sangue do coração é abundante, o espírito, de natureza yáng, terá uma boa base no yīn para fixar-se, e assim terá suficiente nutrição para estar tranquilo e com capacidade de concentração. Contrariamente, um vazio de sangue do coração (心血虚, Xīn xuè xū) privará de nutrição ao espírito (心神失养, Xīn shén shī yǎng) e terá assim intranquilidade (心神不安, Xīn shén bù ān) e uma descida das faculdades intelectuais e de concentração da pessoa.

Outro factor de perturbação do espírito é o calor e o fogo. Assim, na medicina chinesa diz-se que o fogo arrasa facilmente o espírito (火易扰心, Huǒ yì rǎo xīn). Passa esta situação porque a natureza do fogo é inflamar-se com trajectória ascendente (火性上炎, Huǒ xìng shàng yán), com o qual tanto o calor como o fogo tem uma tendência ascendente que faz que estejam onde estiverem localizados no organismo, acabem afectando o coração, com o qual agitam o espírito. É por este motivo que o coração sente aversão com o calor (心恶热, Xīn wù rè), por mais que pertença ao movimento fogo (火, Huǒ), no contexto das cinco fases (五行, xíng).

Outro factor perturbador do espírito éas mucosidades que confundem os orifíciosdo coração (痰迷心窍, Tán mí xīn qiào), um conceito que vem da dinastia Sòng (宋) e que implica uma obstrução por parte de aquelas que impedem a fluidez do yàng puro (清阳, Qīng yáng), de maneira que as funções mentais e as sensoriais ficam bloqueadas, situação que se pode manifestar em forma de vertigem, perdida de consciência, mania, convulsões, hemiplegia… Desde uma óptica biomédica poderíamos dar exemplos como a doença de Alzheimer ou a desordem bipolar afectiva.

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